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DANÇA DA CHUVA JUDAICA (POR JANE BICHMACHER DE GLASMAN)

Em Sucot somos julgados no que diz respeito à água (Talmud Rosh Hashana 16a) De fato, toda celebração que acontecia em Jerusalém em Sucot estava conectada à água, incluindo as orações para a chuva e a cerimônia de Simchat Beit HaShoevá.

Em muitas partes do mundo, especialmente em Israel, celebra-se nas noites dos dias intermediários de Sucot, Simchat Bêt hashoevá, a "Festa da Água", que é uma festa popular de grande alegria. Remonta aos tempos do Segundo Templo, quando havia festas de muita alegria, com a participação de grandes massas do povo, que enchia Jerusalém, nesta Festa de Peregrinação, mais ainda que nas outras. Este nome (shoevá quer dizer tirar água da fonte) deve-se à cerimônia em que se tirava muita água, a qual era jogada no altar.

Centenas de candelabros que ardiam no Monte do Templo iluminavam a cidade de Jerusalém. Os músicos e coros dos Levitas, postados nos quinze degraus do Santuário, reforçados por milhares de vozes do povo, tocavam e cantavam os louvores de D-us. Perante eles dançavam, com grande júbilo, os sábios e líderes do povo. O Talmud declara que quem não viu a alegria desta festa, nunca viu uma verdadeira alegria em sua vida (Mishná Sucá 5:1).

Em Shemini Atseret começa-se, a partir da prece Mussaf (Adicional), a rezar por chuva, sendo o início da estação da chuva em Israel, quando se começa a inserir a frase "mashiv haruach umorid hageshem" (faz o vento soprar e traz a chuva) nas preces diárias (continuando durante o inverno, até o 1º dia de Pessach) na oração de Shemoné Esré (Amidá).
Depois de Rosh Hashaná e Iom Kipur, quando rezamos por nossa existência, em Sucot e Shemini Atseret nos preocupamos com a qualidade de vida. Rezamos, então, para o físico; para que chova. A palavra hebraica para chuva é gueshem, que significa "físico". Para quem lida com agricultura, chuva significa vida. Ela nutre e sustenta o crescimento dos alimentos. Em Israel, ao contrário do Brasil, é previsível: durante o inverno deve chover; no resto do ano, não. Sucot acontece às vésperas do inverno chegar a Israel, logo antes de começar a estação chuvosa. Por isto ela era considerada o evento de maior importância no calendário judaico.

Em sua forma primitiva, Sucot era um feriado em que os judeus pediam por chuva, o que era feito com muita alegria e pompa. Na época do Templo, judeus vinham de todas as partes do mundo para trazer suas oferendas e festejar com música, danças, menorot gigantes, tochas e sacrifícios especiais. Os rituais visavam a garantir a chegada das chuvas de inverno.

Hoje em dia, este aspecto foi reduzido. Mas para nós que vivemos em áreas urbanas, onde as paredes nos protegem das mudanças climáticas, o significado agrícola de Sucot nos desperta para valores esquecidos no cotidiano. Ele provoca nossa reconexão com o ecossistema e nossa conscientização de vivemos no planeta Terra. Os ritmos da natureza e seu equilíbrio afetam nossas vidas. Esse é o primeiro dos ensinamentos importantes de Sucot.

União e igualdade de direitos são temas-chave de Shemini Atsêret e Simchat Torá, datas nas quais nos alegramos com a Torá. A melhor maneira de celebrar seria dedicar os dois dias à leitura da Torá. Mas ocorre justamente o contrário: todos pegam a Torá fechada e dançam com ela nos braços. O ato encerra uma grande lição: se os festejos fossem realizados com a Torá aberta, com sua leitura, haveria distinções entre um judeu e outro, pois a compreensão e o conhecimento de cada um são diferentes. Com a Torá fechada, mostramos a união e a igualdade de todos os judeus, unidos pela mesma alegria. O texto não é lido, mas todos sabem que é algo precioso e, por isso, dançam juntos e em total alegria.

* Doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica, professora adjunta, fundadora e ex- ex-Diretora do Programa de Estudos Judaicos e do Setor de Hebraico da UERJ, escritora.

 


[1] Do artigo: Alegria e água, da autora deste, Publicado em Visão Judaica, outubro de 2008.


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